Cortejo transferido!

Cortejo transferido!

POVO! O Cortejo oficial do Bloco da Laje no Areal da Baronesa foi transferido!
Devido ao mau tempo, faremos uma muamba hoje na Av. Luiz Guaranha e remarcaremos a saída oficial para o segundo final de semana de novembro.
O churrasquinho já está rolando! Quem não se amiudar com a chuva que venha ver o batuque pegar!! Evoé

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Uma viagem pelas ruas do carnaval no Areal

Já temos o trajeto do nosso Cortejo no Areal da Baronesa definido! Vamos reviver a alegria da Avenida dos sonhos, dos festejos hilariantes, da vida delirante, dos amores intermináveis! O espaço boêmio, carnavalesco, que nas décadas de 30 e 40 era composto por seus casebres e cortiços, seus botecos, suas casas de batuque, suas rodas de samba, seus blocos e cordões, vai ganhar um novo colorido com a chegada dos lajudos!

A concentração será às 15 horas na Av. Luiz Guaranha, no bairro Menino Deus. A rua, que leva o nome do artesão que produzia sapatos sob encomenda para os nobres que vinham assistir a espetáculos no Teatro São Pedro, hoje é considerada território quilombola, é um espaço social permeado pela cultura ancestral africana. Vamos nos contaminar com as raízes da cultura popular brasileira e levar a alegria de se brincar até a Praça Garibaldi!

Participe do Evento Cortejo do Bloco da Laje – Areal da Baronesa, no Facebook, e fique por dentro: https://www.facebook.com/events/231164603706930/?fref=ts

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Publicado em 2013 | Deixe um comentário

TE PREPARA, BARONESA!

Neste domingo (6/10), as 15 horas, o Bloco da Laje volta a se encontrar no Recato Europeu do Parque da Redenção para os tradicionais ensaios abertos! O Cortejo na Colonia Africana pelo Projeto Cortejos Bloco da Laje 2013, contemplado pelo FAC (Fundo de Apoio a Cultura), foi pura poesia! Mas a busca por ocupar, permitir a (lou)cura e entender os lugares onde o carnaval de Porto Alegre nasceu, continua! Vamos nos preparar, porque a próxima jornada e rumo ao Areal da Baronesa!

 

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A antiga Colônia Africana foi a primeira etapa, no dia 31 de agosto. Antes de descer a rua Casemiro de Abreu, visitamos o local várias vezes e conversamos com alguns moradores antigos que viveram um carnaval de rua vibrante naquela região. Lembranças felizes que pudemos reviver. Não com o saudosismo vazio repetitivo, mas com a plenitude do rufar dos tambores, dos urros dos trombones e centenas de pessoas a brincar! Os silenciosos condomínios perceberam os primeiros foliões chegarem a Praça Arlindo Pasqualini por volta das 15h. No local, nenhuma menção aos negros que décadas atrás habitavam o local. Um papelão com os escritos COLÔNIA AFRICANA deu conta disso. Quando descemos da praça em direção à rua, onde a Kombi nos esperava, surpresa: o Sol, até então escondido, apareceu, alinhado com o Bloco, por entre as frestas de prédios e casas. E desceu a rua com a gente, iluminando o cinza do inverno.Vizinhos das janelas (quanto mais idosos, mais alegres e receptivos) nos abanavam contentes enquanto a rua era colorida quadra a quadra. Conforme descíamos, o Sol caia iluminando a rua Esperança (hoje chamada Miguel Tostes). Não foi ensaiado, mas ao pisarmos na Avenida Goethe, ele se pôs, uma improvisada saída imperial, deixando a fortuna da noite para os foliões que ocuparam o Largo Ernesto Ordovás até o último tamborim se recolher.

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Como não estar contando os dias para a próxima saída? Nosso segundo mergulho nesta história territorial do carnaval de rua da cidade sera no Areal da Baronesa, mítico berço do samba de Porto Alegre. A região  viveu o carnaval intensamente nas década de 30 e 40, até que um plano de urbanização levou a maioria da população negra para lugares mais afastados do Centro. Dia 26 de outubro sairemos da Rua Luiz Guaranha, no Bairro Menino Deus, lugar onde a poeira levantava do chão quando o carnaval começava, uma rua que resistiu aos avanços do mercado imobiliário e tem consciência de sua importância histórica! Te prepara, Baronesa!!Imagem

Na foto o primeiro ensaio na Luiz Guaranha com a bateria mirim do projeto Integração Areal do Futuro. Essa figura de jaqueta do colorado é o Coração, o compositor e puxador de responsa. Ele garantiu que dia 26/10 vai estar com a agente na avenida!

 

Publicado em 2013 | Deixe um comentário

Cortejo Colônia Africana

No sábado (31/08) o Bloco da Laje sai em cortejo pela região da antiga Colônia Africana! A Laje chega na elegância, cheia de cadencia e cores para sambar em um dos berços do carnaval de rua de Porto Alegre! Nos encontraremos as 15 horas para juntos descermos a ladeira da Casemiro de Abreu e virarmos a Cidade de pernas pro ar!

Inspirados no espírito de cortesia e alegria que marcava a vizinhança do bairro negro, nos antigos chalés de madeira com belos jardins de copos de leite e margaridas e de ruas ocupadas por crianças brincantes é que se dará este carnaval fora de época! Será uma tarde de delírio nesse espaço que é fonte de energia, história e cultura!

Esperamos todos para esta linda festa!
Vamos celebrar a cultura popular, manifestar a alegria e espelhar amor!

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Concentração as 15h na esquina da R. Casemiro de Abreu com a R. Cel. Bordini!

Aperta o confirma lá no evento!

https://www.facebook.com/events/367749920019856/?ref=22

Abaixo roteiro com as letras das músicas para ir treinando em casa!

VEM!

DEIXA BRINCAR (Bloco da Laje)
Deeeeixa brincar!

Quem quiser brincar
Quem quiser que brinque agora

LÁ VEM GENTE / EVOÉ (Pâmela Amaro / Ravi Arrabal, José Facury e Josue Soares)
Lá vem gente vindo
Caminhando, rindo
De azul, vermelho de amor
Tem artista, vem gente da rua
Tem o Sol e a Lua como condutor
Lá vem gente vindo
Colorindo a rua
Fantasia, só se quer brincar
Só se quer pular
Só se quer dançar
Só se quer achar-se na multidão

EVOÉ!!! (saudação)

É evoé, Dionísio, é evoé
É evoé, Dionísio, é evoé
É de agá, é de agá, é de agá
É de agá, é de agá, é de agá

JESUS PREGADÃO (Bloco da Laje /fragmento de Pedro Luís e a Parede)
Eu tô pregadão, eu tô pregadão
Eu tô pregadão, eu tô pregadão (2x)

Vamos tirar, vamos tirar,
vamos tirar, Jesus da cruz (2x)

FUNK DAS TARADAS (Adaptação Bloco da Laje de Cácio e Marco / Nelson Dantas / Leonardo)
A Laje não quer saber de compromisso
O bloco tá em busca de aventura
As lajota fazem até amor na rua
As lajada e os lajudo

Tá tarada, tá tarada, tá tarada, tá tarada…
Sobe toda tarada, desce toda tarada….

Tá tarado, tá tarado, tá tarado, tá tarado…
Sobe todo tarado, desce todo tarado…

Solta o chacra, solta o chacra
Solta o chacra na chácara (4x)

Bolovo, Bolovo (2x)

Noite cheirando a querência nas tertúlias do meu pago
Ela chorava, ela gemia
Era os cabelos do cú que doía

AGUARDENTE E AGUARRÁS (MARCHINHA PEDERASTA) – (Ricardo Pavão)
Refrão
Aguardente, dá o cú quem vai na frente
Aguarrás, dá o cú quem vai atrás (2x) *

Eu bebi tanto a danada da cachaça
E acordei com um ardume do diabo
Parece até que eu peidei foi aguarrás
E um safado prendeu fogo no meu rabo

Refrão

Todo carnaval eu desaprendo a lição
Que me ensinaram que o “de bêbo” não tem dono
Ai se eu descubro quem me pôs a maldição
Não sei se mato esse sujeito ou me apaixono

*Citação de Oswald de Andrade

NÃO CORTA A CABELEIRA DO ZEZÉ (Adaptação Bloco da Laje de Roberto Faissal e João Roberto Kelly)
Não corta a cabeleira do Zezé!
Deixa ser o que ele é!
Deixa ser o que ele é! (2x)

Será que ele é Bossa Nova?
Será que ele é Maomé?
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é

Bate o cabelo dele! Bate o cabelo dele! (2x)

PULA JACARÉ (Bloco da Laje)
Neste bloco não da pra ficar parado
Entrou na chuva saiu molhado (2x)

Pula Jacaré, Pula jacaré
Só não pula quem sacode o sacolé (2x)

COMO VAES VOCÊ (Ary Barroso)
Refrão
Como vaes você?
Vou navegando
Vou temperando
Pra baixo todo santo ajuda
Pra cima a coisa toda muda (2x)

No mar desta vida
Vou navegando
Vou temperando
O céu às vezes é tão claro
E outras escuro
Claro é o passado
Escuro é o futuro

Refrão

Hoje estou convencida
Que o segredo principal da vida
Consiste em não
Forçar em nada a natureza
E o resto vem
Que é uma beleza

SE A COPA (Zé da Terreira)
Se a Copa vem pra cá, eu vou pra onde?
Se a Copa vem pra cá, eu vou pra longe (2x)

Eu vou pra longe, pra muito longe
Eu vou pra onde o diabo me esconde (2x)

TERRA À VISTA (Zé da Terreira)
Terra à vista, terra à vista
Gritava o português das caravelas
Terra à venda, terra à venda
Delirava calculando a sua renda (2x)

Se você quer mais dinheiro
Aumentar seu capital
Conceda pra mim ligeiro
Essa licença ambiental

BUZINA PARALIZADORA

DORME VIZINHO (Sabedoria popular/Bloco da laje)
Dorme vizinho
Não vou te incomodar
Eu tô passando aqui
Mas já tô indo pra lá

COSME E DAMIÃO (Sabedoria popular)
Cosme e Damião a sua casa cheira
Cheira a cravo e rosa, cheira a flor de laranjeira

Cosme e Damião
Damião, cadê Doun?
Doun tá passeando no cavalo de Ogum

CANTO DE XANGÔ (Vinícius de Moraes e Baden Powell)
Salve Xangô, meu rei senhor
Salve meu Orixá
Tem sete cores sua cor
Sete dias para a gente amar

Xangô agodô
Saravá
Xangô meu senhor
Saravá (2x)

IANSÃ (Ricardo Pavão e Flávio Peres)
Manda de água teu manto
Lava o jardim e o quintal
E a rua onde jorra esse canto
Passa o nosso carnaval

Esse é o Bloco da Laje
Que aceita a chuva e o trovão
Parte em mais uma viagem
Guiado pela tua mão (2x)

CAVALEIRO DE ARUANDA (Tony Osanah)
Quem é o cavaleiro que vem lá de Aruanda
É Oxóssi em seu cavalo com seu chapéu de banda (2x)

Refrão
Vem de Aruanda uê

Vem de Aruanda uá (3x)


Quem é esse cacique glorioso e guerreiro
Vem montado em seu cavalo descer no meu terreiro (2x)

Refrão

Ele é filho do verde, ele é filho da mata
Saravá Nossa Senhora, a sua flecha mata (2x)

A FLOR E O ESPINHO/ O SOL É O REI (Nelson Cavaquinho / Bloco da Laje)
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh’alma a sua
O sol não pode viver perto da lua

É no espelho que eu vejo a minha magoa
A minha dor e os meus olhos rasos d’agua
Eu na sua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh’alma a sua
O sol não pode viver perto da lua (3x)

O Sol é o Rei, O Sol é o Rei
O Sol é o Rei é o Rei é o Rei (2x)
A Lua é uma Rainha
A Lua é uma Rainha (2x)

ACENDA O FAROL (Tim Maia)
Pneu furou
Acenda o farol, acenda o farol
Se alguém ligou
Acenda o farol, acenda o farol
Se alguém ligou, minha senhora
Se alguém lhe amou, e foi-se embora

Você pode se encontrar
Você deve se ajudar
E viver tranquilamente
Sentindo disposto

DOU A FANTASIA (Wilson Ney)
Meu amor, não acredito que você se zangou
Estão falando que perdi seu amor
E na escola você não vai sair
Vem sambar, nessas três noites de folia
Se há problemas meu amor
Pode vir que eu dou a fantasia

Vem sambar
Vem desfilar
Eu não quero que você se vá
Pela última vez, vem comigo, vem
Sem você não sou ninguém (2X)

EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA (Sergio Sampaio)
Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou
Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou

Refrão
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero é todo mundo nesse carnaval…

Refrão (2x)

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Laje Aberta – um final de semana de imersão

E aqui estamos ainda extasiados depois da gincana do Bloco da Laje que começou na sexta-feira (16/08) na Casa de Cultura Mário Quintana! Foram três dias de muito trabalho em grupo, pesquisa, autoconhecimento, inspirações e diversão, tudo para que o nosso Cortejo no dia 31 de agosto seja icônica!

Na abertura das atividades que fazem parte do projeto Cortejos Bloco da Laje, contemplado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Governo do Estado, tivemos um encontro especial com o mestre Pernambuco! A figura histórica carnavalesca imergiu todos nos antigos carnavais pelas ruas de Porto Alegre e deu destaque a essência dessa manifestação popular: “A felicidade do ser humano é coletiva, o carnaval nos inspira isso. É o encontro, a doação. Essa comunicação é a do ser humano a mais forte, porque é com arte, sensibilidade, canto e alegria que estamos tratando do que está acontecendo a nossa volta.”! Quanta sintonia! Foi lindo! Como diria o Presidente Juliano Barros: A nossa política é o delírio e o nosso grito de guerra é o amor!

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Fotos: Sete / Nove

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Sábado era dia de experienciar a alquimia das cores azul, amarelo e vermelho! Juliane Senna nos deu todas as dicas para criarmos as makes para as Saídas, além de trazer muitas referências bacanas e encorajar todos a se experimentarem! Fomos das pinturas corporais com carvão aos brilhos! Que delícia é criar, expressar e acariciar os queridos com um Pinta Cara!

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Na tarde, mais um encontro para se guardar na memória! Na oficina Voz e Expressividade o Zé trabalhou dos pés ao coração, ao ritmo das notas do seu fiel violeiro, Flavio Peres. Com sua sensibilidade, o Mestre nos passou muito mais que técnicas e jogos, mas aproximou os corações de todos! Desde então o couro ressoa em cada canto da Cidade: “O segredo principal da vida consiste em não forçar em nada a natureza. E o resto vem que é uma beleza!”!

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O Domingo acordou com o Rei Momo do Bloco da Laje! Thiago Pirajira explorou as poéticas dos corpos! Movimentos, olhares, sutilezas, domínio e consciência corporal. Foi assim que essa oficina foi conduzida, contagiando e sendo contagiada. Embalados pelo tambor de Duda Cunha e pela batucada dos Turulajeiros Vini Silva, Medina e Arthur. Do ritmo nascia o movimento e do corpo brotava a poesia. Uma manhã de domingo inesquecível!

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Na tarde seguimos a batucada regida pelo maestro Vini Silva e fomos parar no Preto Zé Bar! A oficina foi incrível! Das noções básicas de cada instrumento que compõem a bateria do nosso carnaval até a batucada coletiva que contagia!

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Os tambores já estavam aquecidos pro Bailão da Laje! E foi ali mesmo que a festa aconteceu!  Celebração da magia da vida, de se estar entre amigos e de trabalhar por um sonho! A casa se encheu de alegria! Foi um espetáculo composto por todos que ali estavam e se deixavam embalar pela maré do delírio de se amar e respeitar!

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E como a Laje não cabe em nenhum quadrado, a celebração correu pra rua! E a Cidade Baixa presenciou o Cortejo dos anseios, com direito a carros alegóricos e cantorias! E assim foi rabiscado, em grande estilo, o nosso Cortejo do dia 31 de agosto, quando homenagearemos as raízes da festa da carne, na antiga Colônia Africana de Porto Alegre! Esperamos todos lá!! Evoé!

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Ocupar a rua em favor da alegria!

Texto de Lídia Matilde Santana de Souza 

Mestre em Artes pela Universidade Federal do Pará

coratrent@yahoo.com.br

Foto: Ímpeto nos Olhos

Foto: Ímpeto nos Olhos

Nestes tempos de brevidades, afirmações precisam de consenso para se intensificar e ganhar, depois, fluidez na porosidade do tecido social. O carnaval é consenso de identidade nacional. Considerado uma das maiores manifestações da cultura brasileira, reconhecido no globo como uma festa popular. Uma das maiores alavancas do turismo de eventos do país. Todavia, ser popular significa que o carnaval é do povo? E o que hoje, nós brasileiros entendemos como sendo do povo? Fazer parte da cultura pop, pode não ter nada haver com ser do povo.

“Povo”, nominação mais freqüente nos jargões da política e que parece cada vez mais esgarçada como conceito de minoria. Afinal, de tanta negação de direitos a matemática das minorias contabilizou uma soma estrondosa, que a subverteu em gigantesca maioria. Assim, ”povo” é quantos se autodefinirem, tantos quantos se sintam excluídos, sejam trabalhadores, estudantes ou qualquer outra categoria minoritária, pois quando a dor substitui o prazer, ou a negação do desejo amplia as insatisfações coletivas, eis que (in)surge o POVO!

 Nos tempos tardios da modernidade que vivemos, ou pós-pós como dizem alguns, o Bloco da Laje provou que o carnaval é do povo, quando o espaço expandido da rua não cerceia o movimento popular, nem a participação espontânea da grande massa humana, que converge para esses encontros da alegria com a fantasia, em exercícios de corporeidades livres e lúdicas. Encontros/acontecimentos/movimentos, os quais não têm cercas, não têm abadas, nem arquibancadas bancadas por empreendedores e subversores da indústria cultural, cuja maioria das vezes, faz-se em detrimento dos direitos à cultura e ao lazer da paradoxal, extensa camada populacional.

No carnaval alegria e melancolia são mais que rimas baratas, são também associadas às alegorias conhecidas como Pierrôs, Arlequins e Colombinas. Não sem propósito, essas duas palavras têm algo muito particular para explicitar a força criativa motriz do Bloco da Laje. Laje é o espaço no qual as pessoas garantem o acesso ao lazer e a vida social nas periferias e favelas dos grandes centros urbanos brasileiros. Nada mais melancólico e, contraditoriamente, mais afirmativo da alegria como estado de potência.

A laje é “um jeitinho” ao crescimento indiscriminado das cidades e aos altos preços dos imóveis nas áreas urbanizadas e com maior concentração de serviços públicos de saneamento, cultura e lazer, para não falar de outros… O também conhecido “puxadinho”, algumas vezes, ajuda a equilibrar a economia doméstica, via aluguel de um pequeno cômodo ou algo assim, mas, na maioria dos casos é onde a população recebe os amigos, para aquele churrasquinho ou feijoada de final de semana. Resumindo, é o espaço das sociabilidades.

O Bloco da Laje nasceu do desejo de um grupo de amigos de ocupar a rua e reestabelecer a alegria do carnaval de bloco, pé no chão, pé na realidade. Nasceu no “puxadinho”. Nasceu na laje, por imanência ou contingência da vida. Vida que pulsa, pulsa e rebenta surda aos apelos de civilidade e ordem. Nesse caminho de tensão e intensificação do pensamento é que me aventuro a afirmar que o Bloco da Laje já nasceu predisposto ao transgressivo, ao libertário e ao diverso.

Adultos e crianças seguem o fluxo da Laje que transbordou para a rua. A urgência da urbe é se reinventar como espaço social, de liberdades e direitos civis. Porto Alegre não está insensível a esta insurreição. Prova disso são as multidões que percorrem em cortejos festivos o Bloco da Laje pela Cidade Baixa. O desejo contagiante de compartilhar a recuperação do direito à cidade espalhou-se por outros lugares. E a vontade de ser feliz superou as dificuldades de acesso, os pré-requisitos de classe, as diferenças geracionais ou de gêneros, e se avolumou a cada ano, ao bem de uma fé que supera a dor com transgressão.

Ao comando do mestre de cerimônias, os movimentos vão-se ampliando e virando atos de corpos tomados por uma loucura dionisíaca, catártica, que dá lugar para o improviso anárquico, para o delírio pintado de vermelho, amarelo e azul, que aos poucos, vai-se enriquecendo por outras cores. Assim, vibração e exuberância vencem o cansaço, pelo simples prazer do direito à brincadeira. A rua é o espaço mais democrático que a vida citadina conseguiu garantir.

(Texto publicado no Jornal Laje I – julho de 2013)

 

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Listão de Inscritos das Oficinas do Bloco da Laje – FAC 2013

Nação Dionisíaca Carnavalesca Porto Alegrense:

Saiu o listão! Este é o primeiro projeto do Bloco da Laje. Ficamos muito contentes com o grande número de emails recebidos.

Procuramos ao máximo contemplar o maior número possível de pessoas, então se você foi selecionado e, por algum motivo, não vai poder realizar a oficina, nos comunique o quanto antes para que essa vaga possa ser preenchida por outro interessado. Atentem para os horários e locais das oficinas, e qualquer dúvida entrem em contato conosco (blocodalajepoa@gmail.com).

Os selecionados receberão um email com as necessidades específicas de cada oficina, em breve.

ATENÇÃO: as oficinas de Maquiagem, Voz e Expressividade e Poéticas do Corpo, que aconteceriam na Sala C2 da Casa de Cultura Mario Quintana, serão realizadas na Sala Cecy Frank, no quarto andar, ainda na CCMQ.

Agradecemos o interesse de todos e vamos trabalhar para realizar novas oficinas e outras atividades culturais. Lembramos que estão todos convidadíssimos a comparecer aos nossos ensaios abertos, sempre lá no Parque da Redenção, todos os domingos a partir das 15h até o sol cair!

Agendem-se! Dia 31 de Agosto descemos – TODOS NÓS – a rua Casemiro de Abreu!

Até lá brincantes,

Evoé!

Bloco da Laje

Contexto Histórico – Com Professor Pernambuco – 16 de Agosto – Sexta – Noite (19h), Mezanino da CCMQ

Aloisio Dias da Silva
Alexandre Kunsler
Ana Girardello
Ana Paula Tedesco
Anildo Boes
Betiele da Silva Vitoria
Bianca Machado Borba Soll
Camila Falcão
Carolina Bom
Caroline Caetano dos Santos
Di Santos
Eduardo André Viamonte
Fabio de Medeiros Albano
Felipe Soares
Fernanda Medeiros
Flávio Peres
Frederico Vittola
Gabriela Silveira
Ingrid Borges
Isandria Fermiano
Juliana Bertani
Juliana Porto Guimarães
Juliana Pureza
Juliana Trindade
Juliane Baptista
Juliane Senna Munhoz
Katiúscia Machado
Laura Piccoli Weinmann
Laura Schenkel
Leo Paixão
Letícia Gutiérrez de Gutiérrez
Lisângela Marques da Silva
Luciana de Melo
Lueci Silveira
Luiza Carmona
Mariana Lopes
Mariana Lopes
Marina Brondani
Matheus Chaparini
Maureen H. Turnbull Arbelo
Nathanael Cabrera
Pádula Rita Ferreira
Rafale Valadão
Rebecca Wenk
Renaha Morés
Renata Pinheiro de Freitas
Renata Zonatto
Thai Gonzales

 

Oficina de Maquiagem com Juliane Senna – 17 de Agosto – Sábado – 9h, Sala Cecy Frank, CCMQ 
Amanda Gatti
Alessandra Souza
Aloisio Dias da Silva
Ananda Casanova
Anildo Böes
Bianca Machado Borba Soll
Cris Clezar
Danielle Rangel
Eduardo André Viamonte
Fabiana Lontra
Fabio de Medeiros Albano
Felipe Soares
Francisco de los Santos
Frederico Vittola
Gabriela Silveira
Giuliana Zani
Ingridi Borges
Isandria Fermiano
Itatiele Vivian
Juliane Baptista
Karen  Calza
Katiúscia Machado
Kaya Rodrigues
Leo Paixão
Letícia Gutiérrez de Gutiérrez
Letícia Silveira França
Luciana de Melo
Luiza Carmona
Mariana Lopes
Mariana Tevah
Miltinho Talaveira
Pádula Rita Ferreira
Raquel Matzenbacke
Rebecca Wenk
Renata Pinheiro de Freitas

Shana Weber

Tatiane Vasconcelos
Vanessa Lomanto
Vitória Peres Rios Ferreira Cherfên
Viviane Falkenbach
Oficina de Voz e Expressividade com José Carlos Peixoto – 17 de Agosto – Sábado – 15h, Sala Cecy Frank, CCMQ
Bruna Medeiros
Camila Falcão
Camile Campão
Flavia Reckziegel

Francisco De Los Santos

Ingrid Borges
Isandria Fermiano
Juliane Senna
Kaya Rodrigues
Lara Cruz
Laura Piccoli Weinmann
Laura Schenkel
Liana Figueiroa
Lucas Melo
Martina Frohlich

Manuella Pereira Goulart

Rafael Erê
Renatha Morés Suplente
Sandra Ganzer
Tatiane Vasconcelos
Oficinas Poéticas do Corpo com Thiago Pirajira – 18 agosto – Domingo – 9h, Sala Cecy Frank, CCMQ
Lisângela Marques da Silva
Ananda Casanova
Ananda Feix
Anildo Böes
Bianca Machado Borba Soll
Camila FalcãoClarissa Brittes

Dionéia de Moraes

Eduardo André Viamonte
Fabio de Medeiros Albano
Felipe Soares
Flávio Perez
Frederico Vittola
Gabriela Silveira
Giovanna Furtado
Claudio Oss
Ísis BisognoInês Hubner
João Gabriel Moraes
Jonas Melo
Juliana Guimarães

Karen Priscilla Severo Amaral

Linda Shulz

Letícia Gutiérrez de Gutiérrez
Manuela Miranda
Mateus Ozório
Nadia Dugantes
Nathanael Cabrera
Pádula Rita Ferreira
Priscila Paixao Azevedo
Rafael Erê
Rebecca Wenk
Renata Pinheiro de Freitas
Renata Zonatto
Roberta Perin
Vanessa dos Santos
Oficina de Percussão com Vini Silva – Domingo – 18 de agosto – 15h, Preto Zé Bar, R. João Alfredo, 486
Alexandre Kunsler
Aloisio Dias da Silva
Anildo Böes
Arthur Klaussman
Cleber dos Santos
Cristiano Morais

Dani Dal Moro

Deise Anai

Débora Radaelli

Felipe Soares
Frederico Vittola
Gabriela Silveira
Giovani Vargas

Giuliana Zani

Giuliano Galvani
Glaucia MaricatoHosana Piccardi
Juliana Trindade
Karen  Calza

LauraSchenkel

Letícia Gutiérrez de Gutiérrez

Lívia Dávalos

Luis Barreto
Martin Weiler
Matheus Chaparini
Maureen Turnbull
Mauricio da Silva Dorneles
Pati Airoldi
Patricia Nunes
Petcy Petron
Rafael Valadão
Raquel Matzenbacke
Renata Lupi
Saymon Freitas

Shana Weber

Silvia Zelaya
Tatiane Vasconcelos
Thai Gonzales
Thamires Silva
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Sexta-feira será divulgado o listão das Oficinas!

O Bloco da Laje agradece pelas inscrições! Lemos todos os emails com muita atenção e agradecemos o interesse em participar de nossas atividades.
Adoraríamos receber todos vocês para brincar com o Bloco da Laje, porém as vagas são limitadas. Lembramos que este é o primeiro projeto do coletivo, ainda realizaremos muitas atividades às quais vocês serão todos sempre bem-vindos! Publicaremos a lista dos selecionados para cada oficina sexta-feira, 09/08, a partir das 18h no blog:

http://blocodalaje.wordpress.com/

Seguem nossos ensaios fervilhantes, sempre aos domingos às 15h no Recanto Europeu do Parque Farroupilha, nossa querida Redenção. Esperamos todos lá!

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Aqui o inverno tem outro tom!

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Ontem (4/08) tivemos mais um Ensaio épico na Redenção! O Sol mais uma vez abriu caminho para o Bloco da Laje ocupar o Parque…e aos poucos os sorrisos foram se aproximando, os olhares se tocando, os tambores seguraram o ritmo, e o povo, todo junto e misturado, explodiu em alegria!

ImagemA tarde também foi dedicada á afinar o tom com os nossos ilustres compositores. A dupla Peres e Pavãozinho (Flávio Peres e Ricardo Pavão) botou o Bloco pra cantar Iansan! Diz que foi depois desse chamego que a Mãe voltou a nos liberar pra brincar na rua com o Sol. O Mestre Zé da Terreira passou as letras das suas composições adotadas no repertório da Laje, uma que trata dos escândalos relacionados à Copa do Mundo de 2014 e a outra da facilitação/venda de licenças ambientais… e e o coro fez a cama para que o recado fosse dado:

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“Se a Copa vem pra cá, eu vou pra Onde

Se a Copa vem pra cá, eu vou pra Longe

Eu vou pra Longe, pra muito Longe

Eu vou pra onde o diabo me esconde.”

“Terra à vista, terra à vista

Gritava o português das caravelas

Terra à venda, terra à venda

Deliravam calculando a sua renda

Se você quer mais dinheiro

Aumentar seu capital

Me conceda aí ligeiro

Essa licença ambiental.”.

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Difícil é parar de cantarolar os novos Hits da Laje!! É bom bailão, én! Agora imagine esse povo descendo a Casemiro de Abreu no dia 31 de agosto! Multiplique isso pelo número de batidas por segundo dos nossos corações… Delírio!!!!

Boa Semana!!

Publicado em 2013 | Deixe um comentário

O dono do apito dá a largada!

Conheça um pouco mais das peripécias do Professor Pernambuco, Waldemar Lima, que fará a abertura do final de semana de oficinas do projeto Cortejos Bloco da Laje que acontece nos dias 16, 17 e 18 de agosto! No dia 16, às 19h, o Professor nos encontra no Mezanino da Casa de Cultura Mário Quintana para falar um pouco sobre o Contexto Histórico do Carnaval de Porto Alegre. O mobilizador e agente cultural viveu o surgimento dos Blocos de rua da Cidade e foi transformador ativo no processo e consolidação deste movimento popular na Cidade! Ele se valeu da sua formação em Artes Dramáticas para espetacularizar a festa, e ganhou muitos carnavais com a sua inovação!

Professor Pernambuco. Foto: Thiago Lázeri

Professor Pernambuco. Foto: Thiago Lázeri

Pernambuco: o dono do apito

Educação, cultura, movimentos populares, carnaval…uma vida em ritmo de samba!

Casa de Cultura Mário Quintana, 3 de julho de 2013 19h15

Encontramos o professor Pernambuco e fomos achar um lugar para a roda de conversa. O Cabaré do Verbo estava fechado. Uma placa pendurada na corrente que cerrava o espaço dizia: Não ultrapasse. O Professor murmurou: – Aqui é um lugar bom. E o Presidente da Laje aderiu à ideia, tirou a corrente do caminho e acendeu as luzes. Foi assim que se iniciou o papo iluminado e transgressor com o Mestre.

Contato com o carnaval

Pernambuco – A primeira vez que eu vi [carnaval em Porto Alegre] foi uma Estudantina. Lá no nordeste nós chamamos os Blocos de Frevo, aqui é Estudantina, que são os Blocos com instrumentos de sopro. Tinha bastante gente no Bloco, mas só do Bloco. Bastante gente negra. O Bloco era de negrão. O Bloco saía, descia a rua do Correio, a Caldas Junior, aqui no Centro. Bom, pra mim começou assim. Mas o carnaval de rua, comparado com o nordeste, não tinha. Na época era muito pouco carnaval. Depois começaram a surgir os Blocos, as Tribos. Começam a vir essas coisas e eu começo a participar.

Laje – Tu viveu o Areal da Baronesa, o berço do carnaval de rua de Porto Alegre?

Pernambuco – O Areal da Baronesa não era um Bloco, era toda aquela zona da Cidade Baixa. O Areal ia do Pão dos Pobres até a Ipiranga, e ia até a Getúlio Vargas. Areal da Baronesa porque aquilo ali era uma fazenda de uma baronesa e areal porque na época não tinha calçamento. Nós fazíamos o carnaval no areal, levantava uma poeira. E o Guaíba vinha até a frente da Igreja Pão dos Pobres. Era um território negro. Isso por causa daqueles quartéis que tinham ali, e na época 90% dos soldados eram negros. Ali tinha muito o que se chamava de Avenida. Era uma casa na frente, e nos fundos um corredor de quartinhos, que as pessoas alugavam. Tipo o Cortiço, vocês leram O Cortiço? Ali era o reduto da comunidade negra. Com várias casas de religião afro. Pra tu teres uma ideia, nesse espaço nós tínhamos seis Blocos carnavalescos. Quando eu cheguei aqui, eu não morava lá. Eu sou um negro de classe média. Então fui morar na Rua da República. Mas eu fugia, saia pela janela do apartamento e ia pra lá. Voltava só de manhã cedo.

Laje – Qual o clima lá?

Pernambuco – O clima era o samba pegando direto. O pessoal sambando. Era muito bom aquilo lá. Sábado a gente ia pra lá de tarde, tinha 4, 5, 6 botecos e cada boteco daqueles com uma Banda. O pessoal fazendo samba e tal, uma coisa bem mais solta, bem mais descontraída, bem mais alegre. O povo muito sofrido, mas muito alegre. Não sei se vocês já se deram conta disso: Quanto mais miséria, mais o povo tem disposição para sobreviver. Não é de graça que têm várias letras de samba dizendo isso, dizendo que ele ta aí para alegrar, para descontrair, te tirar das tuas preocupações.

Sobre as inquietudes

Pernambuco – A minha mãe dizia que eu era traquina, aquele que faz tudo que não deve ser feito. Eu tinha muito problema de relação com as coisas que estavam postas. Seria um garoto que hoje a gente chamaria de índigo, não gosta das coisas, as coisas que estão aí não são coisas boas, são muito quadradas. Até hoje, minhas filhas dizem: – Pai, tu não tem jeito. Eu não estou sempre contra, eu estou contra as coisas erradas. Eu não consigo ficar calado, é muito complicado.  Com essa história aí e esse meu jeito,e na época eu estava começando a tocar violão tenor, super envolvido com aquele povo… E conhece um, e conhece outro, e bate papo com um e outro, eu fui convidado para dirigir uma escola de samba.

O carnaval chamou

Pernambuco – Eu era uma espécie de ensaiador. Aí eu vou me envolver depois com a Tribo carnavalesca Os Xavantes (campeã de 1954 à 61), á convite de um amigo. A Tribo já era outra coisa. Nós saímos com 30 pessoas, tocando corda, violão, cavaquinho. Uma coisa muito harmoniosa, muito bonita. O desfile era nessa região (Areal da Baronesa), e na época já tinham também os Coretos de Bairro.  Aí nós éramos convidados e tinha uma premiação.

A arte que salva, um salve à arte

Pernambuco – Aí arrumei problema lá no Xavantes e tive que sair, quero dizer, me mandaram embora. Aí eu fui para o Trevo de Ouro. Mas nessas alturas já tinha uma coisa que me dava vantagem em cima dos companheiros, eu estava estudando. Eu prestei vestibular para Direito. Mas na época não era como agora, na época era meio duro. Na época eu fiquei por cinco décimos em Filosofia. Por isso que vocês não estão falando com um advogado. O que foi muito bom! Como eu não queria sair porque eu já tava casado, tinha uma filha e uma tendência ao fervo..eu resolvi parar de tocar, parar com esses negócios. Então para não ficar fora eu fui fazer Artes Dramáticas. Aí foi minha salvação.

Carnaval espetáculo??

Pernambuco – Porque com o curso de Artes Dramáticas, eu tinha uma visão que os outros companheiros não tinham. Eu tinha uma disciplina que eles não tinham. Eles eram extremamente criativos, mas a universidade nos da subsidio, ela não te da substancia. Substancia é o dia a dia, é a prática, é você ta na batalha. Isso fez com que eu começasse a colocar no Trevo algumas técnicas que eu aprendi na universidade. Aí o Trevo de Ouro começou a ganhar o carnaval! Fazia 10 anos que não ganhava, ai no primeiro ano fomos vice, no segundo campeões, no terceiro campeões..

Sobre liberdade, criação

Pernambuco – Aí nessas alturas eu estou colocando as minhas experiências de teatro. O pessoal começou a dizer que eu não fazia carnaval, que eu fazia teatro. Por exemplo, nós fizemos um trabalho contando a história dos negros em Vila Rica. Então este foi um espetáculo que nós fizemos chamado Chico Rei. O Chico Rei é esse negro que está em Vila Rica, que tem com ele toda uma tribo e essa tribo ta toda escravizada. E o Chico Rei começou a libertar os negros fazendo exatamente isso. Os negros que iam trabalhar nas minas colocavam as pepitas no cabelo para passar na revista e quando chegavam em casa passavam pente no cabelo. Com isso eles iam comprando as alforrias do pessoal. Primeiro da sua família, depois de todo mundo. Então ele chega com isso aí a praticamente libertar toda a tribo.

Nós tivemos um problema de censura depois, não podemos esquecer que estávamos em época de revolução. Deixa eu ver se eu me lembro, a letra dizia assim: “Chico Rei, cedo tu compreendeste, que o homem aqui na terra, vale o poder que tem. Poder é ouro. Justiça é ouro. O homem vale o ouro que ele tem. Chico rei, me compraste a liberdade, me deste a felicidade, com o ouro que cavei.” . A gente passava e tinha uma apresentaçãozinha que a gente chamava de coreto. E nessa apresentação na frente do coreto, tava a alta burguesia e vinham as negas sambando e o carvão nós pintamos de douradinho.

Pernambuco inovações!

Pernambuco – Na época eu fui fazendo coisas intuitivamente que hoje já estão cristalizadas e de maneira muito positiva. Por exemplo, os Blocos tinham uma pessoa que a gente chamava de solista, era o cara que cantava a linha do samba e a gente fazia o refrão. Mas era o solista que cantava. Mas quando eu fui pro Trevo de Ouro eu acabei com essa história de solista, porque eles eram a estrela. Aí ficava todo o grupo na dependência de um.  Vamos supor que no dia do espetáculo, esse moço esteja com problema na garganta, como vamos fazer? Então nós temos que ter três. Isso aí foi uma coisa que hoje nós temos nas escolas de samba, as Harmonias. Na época não tinha, eu criei. Outra coisa que na época nós criamos, foram os naipes de instrumentos. A caixeta faz uma coisa, o tarol faz outra, o repinique outra. É uma orquestra. Nós fomos criando uma série de inovações no carnaval.

Nasce o Pirilampo

Pernambuco – E quando eu comecei fazer essas coisas o povo começou a falar muito meu nome. E o Pedro que era o presidente do Trevo de Ouro, para a minha tristeza, chegou e disse que não ia mais fazer carnaval: – Nós agora vamos ser uma entidade filantrópica. Aí foi quando eu fiz o Pirilampo. E para a surpresa minha, no outro ano ele voltou com o Trevo de Ouro. Foi muito ruim.

Laje – Qual a importância de uma manifestação popular como o carnaval nesse contexto que a gente ta vivendo hoje, das pessoas indo para a rua, buscando seus direitos?

Pernambuco – A cultura popular é revolucionária, historicamente. A gente fala em cultura popular, mas na realidade, a cultura na sua dimensão ela sempre se propõe ao novo. Talvez a grandeza da cultura esteja aí, porque ela se renova, ela é um processo. Eu não entendo a cultura como algo acabado. Cada geração que vem, dá o seu colorido, e faz acontecer do seu jeito. Então, a cultura para mim, ela é um instrumento revolucionário, e mais do que revolucionário, ela é formadora. Eu acho que a cultura forma o indivíduo. Eu não entendo, por exemplo, um professor, um educador, que não faça teatro, que não tenha passado pelo teatro. Eu não entendo um professor que não tenha lido bonitas poesias. Quero dizer, que tenha sensibilidade, porque cultura é isso. E a cultura por ser revolucionária ela é um instrumento muito perigoso. E qual a importância do carnaval nisso tudo? O carnaval é a base, porque ele é a expressão do povo na rua. As passeatas, o carnaval, cada um do seu jeito, são a expressão do povo na rua. E o povo na rua é que decide, o povo na rua é o que dá a direção. Lamentavelmente, nós ficamos um período muito longo desconsiderando esses valores da cultura, desrespeitando essa força que o povo tem.

Sobre o despertar para a cidadania: Umbuto (dialeto Yorubá) – eu sou porque você é, nós somos complemento um dos outros

Pernambuco – Nestas ações [do Bloco da Laje] vocês estão criando uma coisa fundamental, básica, que é a respeitabilidade do grupo. Isso que nós estamos fazendo aqui, e vocês estão fazendo em termos de carnaval.  Hoje eu sou um homem que trabalho com grupo, eu sou quilombista, a minha visão de mundo é quilombista, onde buscamos nossos valores de ética e de moral nas raízes dos quilombos palmarinos. Achamos fundamental, para que haja mudanças, que tenham pessoas sérias nos espaços de poder. O que esta acontecendo hoje, com a juventude, é maravilhoso. O que já devia ter acontecido há muito tempo. Esse despertar, essa consciência de cidadania. E antes nós fazíamos e éramos chamados de comunistas, que levamos pau e cacetada do Exercito na época. Nós precisamos mudar, e é com esse tipo de relação de humanismo que vocês estão fazendo (…). E a linguagem é uma só, de fraternização, de solidariedade, de saber que se eu te atingir eu estou me atingindo. Eu só posso crescer se você crescer.

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